Imagine uma substância desenvolvida para tratar problemas cardiovasculares que, décadas depois, passou a chamar atenção no esporte de alto rendimento. Atletas começaram a utilizá-la na expectativa de melhorar a resistência e a recuperação. Até que seu nome entrou na lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidoping.
Essa é a história do meldonium, princípio ativo do medicamento Mildronate. Mas afinal, meldonium para que serve? Quais são seus benefícios comprovados, riscos e contraindicações? Para responder, precisamos separar o mecanismo farmacológico, as aplicações clínicas e aquilo que realmente foi demonstrado em atletas.
Meldonium: para que serve o Mildronate?

Mildronate é um nome comercial do medicamento cujo princípio ativo é o meldonium. Trata-se de um modulador metabólico, capaz de interferir na forma como as células utilizam diferentes fontes de energia. Não é um estimulante clássico, como a cafeína.
O medicamento foi estudado principalmente em situações de isquemia, quando o fornecimento de sangue a um tecido é insuficiente. Suas indicações variam conforme o país e a autorização sanitária. Em alguns mercados, aparece como tratamento complementar em condições cardiovasculares, como angina estável e determinadas situações de insuficiência cardíaca. Uma indicação local não representa aprovação universal, tampouco justifica o uso por pessoas saudáveis.
Quem criou o meldonium?
O desenvolvimento do meldonium está associado ao químico letão Ivars Kalviņš e às pesquisas realizadas no Instituto Letão de Síntese Orgânica, em Riga, na década de 1970. O Mildronate tornou-se conhecido sobretudo no Leste Europeu e em países da antiga União Soviética, antes de ganhar projeção internacional por sua presença no esporte.
Como o meldonium age no organismo?
A L-carnitina participa do transporte de ácidos graxos de cadeia longa para as mitocôndrias, onde podem ser utilizados na produção de energia. O meldonium interfere na síntese e no transporte de carnitina, modificando o uso de gorduras e favorecendo, em determinadas condições, maior dependência do metabolismo de glicose.
Esse mecanismo despertou interesse porque o metabolismo da glicose pode apresentar vantagens de eficiência no uso de oxigênio em tecidos com circulação comprometida. Entretanto, um mecanismo potencialmente favorável durante isquemia não equivale a melhora do desempenho de um atleta saudável.
Quais são os possíveis benefícios do meldonium?
Proteção cardiovascular
Estudos clínicos e experimentais investigaram efeitos do meldonium em pacientes com condições cardiovasculares, incluindo tolerância ao esforço e sintomas de isquemia. A qualidade e a aplicabilidade da evidência variam conforme a condição clínica. Os resultados não devem ser extrapolados para prevenção de doenças em pessoas saudáveis.
Modulação energética
Alterar o metabolismo de gorduras e carboidratos é um efeito farmacológico conhecido, mas isso não significa produzir mais energia de forma automática. Em exercícios prolongados, por exemplo, a disponibilidade de glicogênio também influencia o desempenho.
Circulação cerebral e recuperação
O meldonium foi investigado em algumas condições neurológicas e modelos experimentais de lesão. Esses resultados não demonstram benefícios para memória, concentração ou recuperação esportiva em pessoas saudáveis.
O meldonium melhora força, resistência e performance esportiva?

No Jiu-Jitsu, no MMA e em outras modalidades de combate, o desempenho depende da interação entre força, potência, resistência muscular, capacidade aeróbica e recuperação. Isso torna atraente a ideia de um medicamento que pudesse melhorar todas essas qualidades.
Porém, os estudos em humanos saudáveis são limitados e não demonstram melhora consistente da resistência, da capacidade aeróbica ou da recuperação após o exercício. A existência de uma hipótese bioquímica não substitui ensaios clínicos robustos.
Em particular, não existem evidências clínicas robustas de que o meldonium aumente a força máxima, a potência explosiva, a resistência de pegada ou a capacidade de repetir ataques e defesas no Jiu-Jitsu. Atribuir esses resultados ao medicamento seria extrapolar os dados disponíveis.
Quais são os efeitos colaterais do Mildronate?
O medicamento não é isento de riscos. Informações de bula descrevem reações que podem incluir dor de cabeça, desconforto digestivo, agitação, alterações do sono, reações cutâneas e alérgicas, além de possíveis alterações de frequência cardíaca ou pressão arterial. Reações alérgicas graves podem ocorrer, embora sejam raras.
A frequência de cada evento varia conforme a formulação e a população estudada. A segurança do uso prolongado para melhorar o rendimento de pessoas saudáveis não está bem estabelecida.
Quais são as contraindicações e interações?
Conforme bulas de determinados mercados, contraindicações incluem hipersensibilidade ao princípio ativo ou aos excipientes, insuficiência renal ou hepática grave, gravidez, amamentação e uso por menores de 18 anos. As orientações podem variar conforme a formulação e o país.
Pessoas com doenças cardiovasculares, alterações da pressão arterial ou comprometimento renal ou hepático necessitam de avaliação médica. O meldonium também pode potencializar efeitos de certos vasodilatadores e anti-hipertensivos. Por isso, não deve ser associado a outros medicamentos sem orientação profissional.
Por que o meldonium é proibido no esporte?
O meldonium passou a integrar a Lista Proibida da Agência Mundial Antidoping (WADA) em 2016. Ele permanece proibido tanto em competição quanto fora dela, na classe de moduladores metabólicos.
Uma substância pode ser proibida com base em critérios que incluem potencial de melhora de desempenho, riscos à saúde e incompatibilidade com o espírito esportivo. Isso não significa que todas as alegações de benefício tenham sido demonstradas por estudos clínicos de alta qualidade. Atletas sujeitos ao controle antidoping precisam seguir as regras vigentes, inclusive as relativas a eventuais autorizações de uso terapêutico.
Conclusão: vale a pena usar meldonium para treinar?
O meldonium é uma substância farmacologicamente interessante, desenvolvida no contexto de doenças associadas à isquemia. Mas há uma distância importante entre seus efeitos metabólicos e a promessa de melhorar a performance esportiva.
Não há evidências clínicas robustas de que o meldonium melhore força, potência, resistência ou recuperação em atletas saudáveis. Há efeitos adversos, contraindicações e restrições antidoping. Para quem pratica Jiu-Jitsu, treinamento bem estruturado, periodização, alimentação e recuperação continuam sendo as estratégias centrais para desenvolver essas capacidades.
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Referências e fontes para aprofundamento
- Mildronate: An Antiischemic Drug for Neurological Indications. Artigo científico.
- European Patent Office: Ivars Kalviņš. Histórico do pesquisador.
- Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem: substâncias e métodos proibidos.
- Registro de medicamentos da Letônia: Mildronāts. Informações de bula.
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